Adolescentes e depressão: sentimentos escondidos por trás da rotina

Adolescentes e depressão: sentimentos escondidos por trás da rotina

A manutenção de uma rotina aparentemente saudável não é garantia de bem-estar emocional. Cada vez mais, especialistas alertam que adolescentes com depressão conseguem manter compromissos escolares, convivência social e até desempenho acadêmico satisfatório enquanto enfrentam intenso sofrimento psíquico.

“Existe uma grande distância entre o que o jovem apresenta ao mundo e o que sente internamente”, afirma a psicóloga clínica Renata Souza. “Muitos adolescentes desenvolvem uma espécie de ‘funcionamento automático’, no qual cumprem tarefas sem conexão emocional.”

O psiquiatra Daniel Corrêa explica que esse padrão confunde pais e professores. “Há uma ideia equivocada de que a depressão sempre paralisa. Em muitos casos, ela apenas esvazia o sentido das coisas.”

A falsa normalidade da rotina ativa

Adolescentes deprimidos frequentemente acordam, vão à escola, interagem com colegas e retornam para casa sem que ninguém perceba a dimensão do sofrimento interno. Esse contraste cria uma falsa sensação de normalidade.

“O jovem aprende a representar um papel social”, explica a terapeuta cognitivo-comportamental Luciana Meirelles. “Ele sorri, responde, participa, mas internamente se sente desconectado.”

Segundo a psicopedagoga Ana Beatriz Lima, a queda emocional nem sempre se reflete de imediato no desempenho escolar. “Às vezes, o rendimento só cai quando o quadro já está avançado.”

O perigo de tratar tudo como ‘fase’

Oscilações de humor são comuns na adolescência, mas especialistas alertam que a persistência de sentimentos negativos não deve ser normalizada.

“Quando tristeza, irritabilidade ou apatia duram semanas ou meses, não estamos mais falando de fase”, afirma Renata Souza.

O psicólogo Felipe Morais acrescenta que a banalização do sofrimento gera afastamento emocional. “O jovem sente que não será levado a sério.”

Redes sociais, comparação e identidade

A construção da identidade na adolescência ocorre, hoje, sob forte influência das redes sociais. A comparação constante com padrões irreais de sucesso, corpo e felicidade impacta diretamente a autoestima.

“O adolescente se mede o tempo todo por métricas externas”, explica a pesquisadora Natália Pires. “Curtidas e seguidores passam a valer mais do que a própria percepção de valor.”

Para o psiquiatra Rogério Fontes, essa lógica agrava quadros depressivos. “A sensação de insuficiência se torna permanente.”

A importância do acompanhamento psicológico

Buscar ajuda profissional é apontado como passo fundamental. A terapia oferece um espaço seguro para que o adolescente compreenda e nomeie emoções.

“O acompanhamento ajuda o jovem a construir recursos internos”, afirma a terapeuta Carla Menezes. “Não se trata apenas de aliviar sintomas, mas de fortalecer a saúde emocional.”

Especialistas reforçam que depressão tem tratamento e que o cuidado precoce reduz riscos a longo prazo.

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